A Fonte de Água Viva

Luís Augusto Sombrio

Certa feita, achando-se Jesus na Judéia, e lhe chegando a notícia da prisão de João Batista, retirou-se para a Galiléia, pois não desejava acirrar o ódio de seus inimigos com a sua presença.
Para poupar um caminho mais longo, o mestre atalhou pela Samaria, apesar desta rota ser habitualmente evitada pelos judeus, visto a animosidade entre estes e os samaritanos.
Transpondo as fronteiras da Samaria, e chegando a Siquém, o Senhor pára e senta-se ao lado de um poço, exausto da viagem longa e empoeirada. Encontrava-se só, pois os discípulos rumaram à cidade, para comprar mantimentos.
Não tardou a aparecer uma samaritana, que vinha, com seu jarro, buscar água. Dá-se, então, um destes insólitos diálogos que a história registrou.
Disse-lhe Jesus: “Dá-me de beber.”   A mulher, surpreendida por um judeu lhe dirigir a palavra, lhe responde: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou samaritana?”

Mas Jesus não se fez de rogado: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é o que te diz: dá-me de beber, pedir-lhe-ias que te desse água viva.”

Porém a samaritana não entendendo a linguagem simbólica de Jesus, replica com seus argumentos concretos: “Senhor, tu não tens com que tirá-la, e o poço é fundo; donde, pois, tiras tu essa água viva?”
A mulher com certeza achava-se desconcertada: ela mostrava-lhe que ele não tinha como tirar água do poço, mas o rabi insistia em dar-lhe água!  Jesus ainda argumenta:

- Todo o que beber desta água tornará a ter sede – e lhe mostrava o poço - mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna.

Disse-lhe a mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, nem precise de vir cá tirar água”.

Note-se que a esta altura do diálogo, a mulher passa a ter fé naquelas palavras (parece reconhecer a grandeza daquele que lhe falava), porém ainda interpretava concretamente o que ouvia (queria poupar o esforço de ir ao poço ...).
Detenhamos um pouco o fluxo desta história, para refletir sobre algo muito próximo a todos nós.

Algumas vertentes religiosas se referem ao Deus imanente (“que está dentro”); a psicologia junguiana postula a existência de um self (centro organizador da psique); a psicologia transpessoal e o pensamento holístico consideram que cada parte carrega dentro de si uma imagem do todo, e Kardec nos fala da voz da consciência (“onde estão escritas as leis de Deus”). É a fonte interna, ínsita no ser humano.
Percebe-se, igualmente, que em momentos excepcionais brota no ser (como uma fonte) uma força maior que os limites da personalidade. Encontramos uma grande expressão desta experiência na vida de homens como Paulo de Tarso, Ghandi e Francisco de Assis. A história de Paulo, em particular, mostra com transparência o seu encontro com Jesus na estrada de Damasco, mas também a descoberta de um Cristo interior (“...vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”). Sim, eles encontraram a fonte, ou seja, a centelha divina dentro de si.
No entanto, muitos ainda não descobriram sequer que esta fonte existe – julgam que ela está fora de si, e de ordinário, nas coisas concretas – não era assim que entendia a singela samaritana?  Ah, quem dera fôssemos nós ali, no seu lugar, a dar os primeiros goles na fonte do Cristo..... O tempo passou, e hoje estamos descobrindo que a fonte existe, tal qual um  tesouro escondido.
Psicologicamente podemos dizer, então, que para ter notícias da existência da fonte, devemos ter a humildade e a disposição de ouvir a voz que se coloca ao lado do poço de nossas conquistas materiais e humanas – e que de ordinário se pronuncia quando descobrimos que aquele poço se esgotará ou já se esgotou, a água seca e nova busca se efetua,  enquanto uma voz nos diz:  “há uma fonte que jamais seca...”
Mas continuemos com nossa história.

Percebendo Jesus que a mulher esboçava um entendimento, lhe pede: “Vai chamar o teu marido”.  “Não tenho marido” – responde ela.
- É verdade - replicou Jesus – em dizer que não tens marido, porque cinco maridos tivestes, e o que agora tens não é teu marido.

Com isso, o mestre retoma a metáfora da água que mata a sede eternamente, dando um sentido pessoal à fonte, pois que a samaritana havia bebido da água dos amores insaciáveis com seus cinco maridos e mais um amante, e quanto mais bebia, mais sede tinha.

O que a psicanálise veio a dizer neste século sobre alguns aspectos da depressão -  “falta de provisões internas de afeto, que constrangem a pessoa a só sentir valor interior à medida que o afeto é provido de fora, por outra pessoa”, Jesus aqui ensinava, na poesia de suas palavras. Sim, possivelmente ela buscasse a sua fonte de água viva, que dá o sentimento de valor próprio, confiança e autonomia, no afeto que recebia de seus parceiros (amor dependente). Mas como esta fonte externa um dia falha (esta água volta a provocar mais sede), buscava outros maridos. Eis aqui o dilema atual de muitos cônjuges.
Veja-se o senso de oportunidade e a penetração do rabi da galiléia: encontra uma  mulher, sedenta de valor interior, ao lado do poço a buscar água, e usando da simbologia da mesma água, lhe fala da fonte de água viva!  Não parece natural pensar que ele também nos fale em ocasiões especiais, desta mesma maneira?

Impressionada e aturdida com aquele homem que lhe falava de sua intimidade, a mulher exclama:

- Senhor, vejo que és um profeta! - E desviando de assuntos tão delicados, e talvez pressentindo que o mestre lhe mostraria o lugar desta fonte de água viva – a samaritana lhe indaga dos locais apropriados para adorar a Deus. Ao que o mestre lhe diz que a fonte - o Deus imanente -  deve ser buscado não nas coisas externas, mas no templo da alma: “Mulher, crê-me, chegará a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Mas chegará a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a homens que assim o adorem. Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.

E assim, Jesus viria a permanecer dois dias entre os samaritanos, revelando a eles que era o messias esperado (João, 4, 1-42).

Esta história sempre me vem à mente quando nos deparamos com alguém a buscar a cura. Tenho plena convicção que o dilema que cabe ser superado por todos nós, em especial aqueles que muito sofrem por sentir imenso vazio dentro de si, é de que nossa cura e realização estão em acreditar que a fonte existe, através dos primeiros lampejos da intuição. Uma vez descoberto este córrego de águas cristalinas da alma, trilhá-lo, desbravá-lo, em busca da fonte, do nascedouro, do divino dentro de si, passa ser o significado de nossas vidas. E então talvez percebamos que a ligação com este centro orientador (não seria este o sentimento mais profundo da religião?) passa a ter o significado que Carl Jung referia:

 “A consciência do homem foi criada com a finalidade de: reconhecer que sua existência provém de uma unidade superior; dedicar a esta fonte a devida e cuidadosa consideração; executar as ordens emanadas desta fonte, de forma inteligente e responsável, proporcionando deste modo um grau ótimo de vida e de possibilidade de desenvolvimento à psique em sua totalidade”.

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Respostas a este tópico

Nessa passagem, o termo "marido" NÃO se refere a cônjue e/ou esposo, mas a "MULETA ESPIRITUAL".

"Uno tratutore, uno traitore", já diziam os romanos.

"Não vos ateis à letra que mata, mas ao Espítiro que vivifica". - Paulo de Tarso.

O que não exime pseudo-relacionamentos de, também, serem "muletas" espirituais.

Também (e talvez por isso o termo marido), à época e região a mulher seguia a religião (jugo, submissão) do marido.  (hoje, como  somos muuuuiito "evoluídos", isso já não acontece mais neste planeta!) 

MARAVILHOSO!!muito OBRIGADA!
Ele mistura Psicologia, Psicanálise com Cristianismo e se sai muito bem.obrigada.Tão bom seria que a nossa fonte interna nunca secasse com os problemas da vida, com suas tristezas...

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