Estudo da palestra realizada por KRISHNAMURTI em Ojaí, Califórnia em 16.05.1982 pág. 26/27 do – Ed. Àgora 2000 – Tradução de Ruth Rejtman.

Será que existe ALGUMA COISA SAGRADA que não nos tenha sido revelada pelos nossos pensamentos?

Desde épocas remotas o homem se faz esta pergunta.

Existirá algo mais, além de toda essa confusão, infelicidade, trevas e ilusões? Além das instituições e das reformas? Existe ALGO VERDADEIRO, que esteja fora do tempo, tão imenso, que nosso pensamento NÃO CONSIGA ALCANÇAR?

A humanidade tem explorado este assunto e, aparentemente, pouquíssimas pessoas tiveram liberdade para penetrar nesse mundo.

(Penetrar em si, no limitado MUNDO DE SUA PRÓPRIA MENTE, de suas concepções, crenças, imaginações, sonhos e interesses, e LIVRAR-SE DELAS para poder enxergar algo que não seja do passado – SE É QUE EXISTE ALGO além de suas concepções, crenças, interesses e criação – mantendo na atenção do vazio de algo construído, a racionalidade, a lógica, a consciência original, desperta, não anuviada por esperanças provocadas por medos e receios, entretanto, levar uma vida comum, normal, natural no exercício de suas humanas funções sociais normais.

É possível em resumo, um homem qualquer penetrar todos os chamados grandes enigmas da humanidade, – construídos na incapacidade do homem em conhecer-se plenamente – além de todas as filosofias e religiões, encontrar o MANANCIAL, a origem a fonte de todas as construções do pensar humano existente dentro de si mesmo, e, ser simplesmente um homem comum um homem comum como outro qualquer? Foi até aqui que TODOS os pensadores, filósofos, os criadores de mitos e lendas, foi aqui onde os chamados religiosos chegaram e emitiram uma versão de TUDO poética de tudo que puderam ver no seu tempo e espaço.)

Desde tempos antigos, o sacerdote vem se colocando entre AQUELE QUE BUSCA e AQUILO que ele deseja alcançar.
O sacerdote interpreta; ele se torna o homem QUE SABE, ou PENSA QUE SABE, e o explorador (o homem que busca, estuda, quer saber) sente-se posto à margem, desviado e perdido.
O pensamento seja qual for, não é sagrado.
É produto da matéria, como nós, (ego – memória em movimento para um ponto projetado dela mesmo) somos matéria.

O pensamento tem dividido os homens em religiões e nacionalidades. O pensamento tem origem no CONHECIMENTO, e o conhecimento nunca é completo em alguma coisa, pois é sempre limitado e separador (uma coleção de informações, conclusões de observações, de dados inter-relacionados direcionado para um objetivo, uma idéia).

Onde existem atitudes separatistas, existem conflitos: comunismo e capitalismo, árabes e judeus, hindus e muçulmanos.
Todas essas divisões NASCEM DE PROCESSO DE PENSAMENTO (derivações do pensamento não factual, objetivo, prático), e ONDE HOUVER DIVISÕES haverá conflitos.
ISTO É LEI.

(No momento em que a Consciência Universal é fracionada pelo conteúdo mental morto, restos de experiências que se projetam ao utilizarmos inadequadamente a FUNÇÃO PENSAR como meio de adquirir poder, autoridade, posição, prestígio na auto-identificação, CRIA-SE a dualidade, SURGE à continuidade psicológica, NASCE a Dor, a Morte e todos os males do mundo.)

NADA que o homem TENHA REUNIDO seja nos livros, nas igrejas, nos templos ou nas mesquitas, é sagrado.
Nenhum símbolo é sagrado; ISTO NÃO É RELIGIÃO, é simples maneira de pensar, uma reação superficial àquilo que denominamos de sagrado. Para EXPLORAR A VERDADE precisamos acumular TODA nossa energia (dissipada no fracionamento), precisamos tomar cuidado para NÃO AGIR CONFORME UM PADRÃO, e PROCURAR OBSERVAR nossos PENSAMENTOS, SENTIMENTOS, ANTAGONISMOS, MEDOS, ultrapassando-os de tal forma que nossa mente (fique) se torne COMPLETAMENTE VAZIA (sem conteúdo algum em movimento).

Para explorarmos o que há de mais sagrado, o que não se pode nomear (quando se nomeia, limita-se, criando-se a dualidade, o registro morto nas memórias, “algo não existente” pode até ser nomeado), que está FORA DO TEMPO, (o “alcançável” por “nossa” mente SEM conteúdo algum, VAZIA), certamente, NÃO PRECISAMOS pertencer a nenhum grupo, a nenhuma religião, ter qualquer crença ou fé, pois a crença e a fé SÃO ACEITAS COMO COISA VERDADEIRA, que pode (até) não existir.

É da natureza da crença ACEITAR algo como verdadeiro SEM tentar descobrir por meio da nossa própria pesquisa, de nossa própria vitalidade e energia.
Acreditamos, porque a crença nos traz alguma segurança e conforto, porém a pessoa que está buscando apenas conforto psicológico jamais atingirá aquilo que está além do tempo.

É necessário, portanto, que haja total liberdade.
Será possível nos libertarmos de TODO o nosso condicionamento psicológico?

O condicionamento biológico é natural, mas o psicológico – os ódios, os antagonismos, o orgulho, todas as coisas que causam perturbações – é da própria natureza do EGO, que é o pensamento.

Para chegar lá, é necessária muita ATENÇÃO – não concentração.

Meditar é muito importante, porque a mente, sendo apenas mecânica, assim como o pensamento, nunca chega a atingir o que é total, (o ego, as memórias, o conhecimento JAMAIS se tornará o verdadeiro) a suprema ordem, e, portanto, a liberdade completa.

O UNIVERSO É A ORDEM TOTAL.

A mente humana está em desordem, e precisamos dispor de uma mente completamente ordenada (autoconhecimento) que tenha compreendido a desordem e está livre das contradições, imitações e conformismo. Esta é uma mente ATENTA. Atenta a tudo o que faz, a todas as atitudes nos relacionamentos.

Atenção NÃO É concentração.

A concentração é restrita, estreita, limitada, enquanto a atenção não tem limites.

Na atenção reside a qualidade do silêncio – não do silêncio criado pelo pensamento, que surge após o ruído, não do silêncio que se faz entre um pensamento e outro. Deve aparecer aquele SILENCIO que não foi originado pelo desejo, pela vontade, pelo pensamento.

(Na consciência pejada, o pensamento é o seu conteúdo do pensador, e como o ruído, o barulho existe no silencio, mas cessado o barulho, o ruído, o silencio permanece imaculado, assim é o vazio da Inteligência Universal, a Consciência Eterna Viva, que habita no homem.)
Nesta meditação não há controladores.
Em todos os métodos inventados por grupos, sempre existe esforço, controle, disciplina.
Disciplina (natural) implica aprendizado – não conformismo, mas aprendizado – para que a mente se torne progressivamente (mas de forma descontinua sem nada registra como memória, como objetivo) mais sutil.
Aprender REQUER um MOVIMENTO CONSTANTE (infinito, mas instante por instante – descontinuo); não se baseia em conhecimento. Meditar é LIBERTAR-SE DO CONHECIMENTO (psicológico) que é, por si só, uma forma de medição.

(É não mensurar conhecimentos psicológicos, que não são mensuráveis, observa-los e deixa-los naturalmente ir, desvanecendo-se na própria experiência do ódio, da revolta, ou outra qualquer no exato momento da ocorrência.)

E nesta meditação o silêncio é absoluto.
Então, nesse puro silêncio, repousa aquilo que não se pode denominar.

Krishnamurti

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